27/02/2009 15:07
Pague em dia, mas não leve – Coluna Carlos Brickmann
Coluna de domingo, 1º de março

O caro leitor pode não acreditar. Mas houve uma época em que quem comprava e pagava um produto ou serviço tinha o direito de recebê-lo. Hoje é assim:

1 – Um jornalista (anônimo, pois teme que a Telefonica o deixe isolado de novo) pediu que seu telefone fosse transferido do endereço antigo para o novo. A Telefonica marcou nove visitas e não apareceu (e duas vezes bateram-lhe o telefone na cara). A novela durou um mês (leia tudo em Novela: "Fui feito de bobo") mas acabaram botando o telefone.

2 – O publicitário José Eduardo Schwartsman pediu à NET que transferisse sua TV a cabo do endereço antigo para o novo – uma casa vizinha, no mesmo condomínio. A NET disse que não atuava naquele endereço. Como, se ele tinha a assinatura há dois anos? Inútil: teve de contratar uma concorrente. E a NET instalou TV a cabo na casa ao lado – ali, no endereço onde garante que não atua.

3 – A jornalista Marli Gonçalves pediu à Telefonica que transferisse seu número do endereço antigo para o novo, no prédio em frente. O técnico não apareceu, alegando que desconhecia a rua – a rua da Consolação, uma das mais famosas de São Paulo. Depois, um técnico instalou o telefone no poste e, por mais R$ 70,00, por fora, se ofereceu para ligar o aparelho. Ele instalou o telefone – que, 15 dias depois, continua mudo. Em compensação, a Telefonica mandou-lhe um Speedy não-pedido, que continua na caixa, esperando que alguém vá buscá-lo. Veja a história inteira (tragédia, mas também comédia) em Novela: a caminho da loucura, com a Telefonica.

As multinacionais tratam assim clientes que têm acesso aos meios de comunicação e podem protestar. E os outros clientes? Eles que paguem e não bufem.

Empregos voando

O presidente Lula disse que ficou furioso com as demissões na Embraer. Mas, quando escolheu o avião presidencial, preferiu um estrangeiro e gerou empregos na Europa. Também depende do Governo criar condições para que as empresas aéreas do país prefiram os jatos nacionais aos importados. Se para TAM e Gol fosse vantajoso comprar aviões nacionais, a crise passaria longe da Embraer. No mundo se faz assim: quando França e Inglaterra desenvolveram o Concorde, suas empresas aéreas foram as primeiras a encomendá-lo, viabilizando a produção.

Quem paga a baderna

Quando o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, diz que dar dinheiro público a entidades que promovem invasões de terras é ilegal, está falando em tese: não se refere diretamente à invasão de Colina, onde o MST matou quatro pessoas, nem às invasões do Carnaval Vermelho, onde o MST, ala José Rainha, ocupou (e depois desocupou) 20 fazendas. Mas certamente o ministro tem um número na cabeça: de 2002 para cá, começando com Fernando Henrique, o Governo Federal deu pouco menos de R$ 50 milhões a entidades que se dedicam a invadir propriedades. Houve mais de 1.600 invasões.

Elle quer voltar

O ex-presidente Fernando Collor, hoje no PTB, hoje fiel aliado do PT e de Lula, articula sua candidatura ao Governo de Alagoas. Seria interessante assistir a comícios de Collor com elogios a Lula e Dilma – talvez até com a presença de um dos dois, ou de ambos. Do jeito que anda a política alagoana, pode dar certo.

Sabe quem paga?

Não dê muita importância ao noticiário sobre a visita do presidente Lula a Nova York, para um seminário sobre biocombustíveis promovido pelo Wall Street Journal, do milionário ultraconservador Rupert Murdoch. O seminário é patrocinado pelo Governo – e pelo contribuinte - brasileiro. É mais ou menos como aquela história da revista Foreign Affairs, que falava bem do Brasil em matéria paga: é o nosso dinheiro sendo gasto com a imprensa estrangeira.

Respeitem quem faz

Parece incrível, mas é verdade: duas Promotorias abriram inquérito civil contra a Maurício de Souza Produções – aquela, que produz as perigosas revistas de Mônica, Cebolinha e Cascão. Motivo: as linguagens, personagens, imagens e outros elementos de comunicação "são altamente atrativos” ao público infantil e "capazes de persuadir as crianças e explorar sua extrema vulnerabilidade e suscetibilidade aos apelos comerciais e publicitários”. Parece que as revistas anunciam produtos infantis. Agora, cá entre nós: que é que queriam que fosse anunciado nas revistas da Turma da Mônica? Cruzeiros marítimos com Roberto Carlos? Cerveja sem álcool? O PAC? Reedição dos discos de Carlos Galhardo?

Respeitem quem merece

Maurício de Souza criou no Brasil a indústria dos quadrinhos, enfrentando com êxito a concorrência da Disney. Foi editado amplamente no Exterior. Combate o racismo (uma de suas histórias, magnífica, foi premiada no mundo inteiro por esse motivo). É adorado pelas crianças – e, na Semana de Quadrinhos promovida pela Escola Panamericana de Arte, com astros como Will Eisner, sua apresentação foi a mais concorrida. É preciso acabar com essa história de perseguir brasileiros que fazem sucesso e, merecidamente, se transformam em ídolos.


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